A substituição do açúcar pode gerar benefícios, mas evidências científicas recentes mostram que nem sempre será isenta de riscos
Por anos, os adoçantes substitutos do açúcar foram vistos como aliados da saúde. Presentes em refrigerantes “zero”, doces dietéticos, barras de proteína e produtos voltados à dieta cetogênica, eles prometem sabor doce sem calorias, sem picos de glicose e sem prejuízos metabólicos.
No entanto, evidências científicas recentes vêm levantando um alerta importante: um desses adoçantes, amplamente considerado seguro, pode estar associado a um risco aumentado de infarto e acidente vascular cerebral (AVC).
O composto em questão é o eritritol, um álcool de açúcar naturalmente encontrado em pequenas quantidades em frutas e também produzido industrialmente para uso em alimentos ultraprocessados.
Ele ganhou popularidade por não elevar a glicemia, não estimular a liberação de insulina e causar menos desconforto intestinal do que outros adoçantes semelhantes. Por essas características, foi aprovado por autoridades regulatórias em diversos países e adotado em larga escala pela indústria alimentícia, inclusive no Brasil.
Nos últimos anos, porém, estudos começaram a indicar que o eritritol pode não ser biologicamente neutro. Pesquisas recentes sugerem que ele pode interferir diretamente na função dos vasos sanguíneos, principalmente no cérebro, criando condições associadas a eventos cardiovasculares graves, como infarto e AVC.
Um dos trabalhos que reforçam essa preocupação é um estudo publicado em 2025 na PubMed Central, intitulado “Associações entre adoçantes artificiais e doenças cardiovasculares, acidente vascular cerebral e diabetes: um estudo de randomização mendeliana”.
Os riscos do eritritol
A pesquisa analisou dados genéticos e encontrou uma associação entre níveis mais elevados de eritritol no organismo e maior risco de doença arterial coronariana, ataque cardíaco e AVC. Não foi observada, no entanto, associação significativa com insuficiência cardíaca ou diabetes.
Os autores destacam que o método utilizado na pesquisa, randomização mendeliana, reduz o risco de equívocos, fortalecendo a hipótese de que o eritritol pode ter um papel direto nos problemas cardiovasculares.
Ainda assim ressaltam que os resultados não estabelecem causalidade definitiva, mas indicam um caminho que merece atenção.
Evidências ainda mais preocupantes vêm de estudos celulares. Uma equipe da Universidade do Colorado em Boulder investigou os efeitos desse adoçante em células endoteliais microvasculares cerebrais humanas, responsáveis por revestir os vasos sanguíneos do cérebro e regular funções essenciais como fluxo sanguíneo, inflamação e coagulação.
Publicado no Journal of Applied Physiology, o estudo expôs essas células a uma concentração de eritritol equivalente a cerca de 30 gramas, valor comparável ao encontrado em uma bebida adoçada.
Em apenas três horas, os pesquisadores observaram um aumento de 204% na produção de espécies reativas de oxigênio, moléculas associadas ao estresse oxidativo e ao dano celular.
Embora as células tenham ativado mecanismos de defesa antioxidante, como o aumento das enzimas superóxido dismutase-1 e catalase, o estresse oxidativo permaneceu elevado. Segundo os autores, esse desequilíbrio pode ser um gatilho para alterações mais profundas na função vascular.
Pesquisadores ressaltaram que os resultados não estabelecem causalidade definitiva entre adoçantes e infarto e AVC, mas indicam um caminho que merece atenção
Pesquisadores ressaltaram que os resultados não estabelecem causalidade definitiva entre adoçantes e infarto e AVC, mas indicam um caminho que merece atenção
O estudo também avaliou a resposta das células à trombina, uma substância envolvida na coagulação. Em condições normais, esse estímulo aumenta a liberação do ativador de plasminogênio tecidual (t-PA), responsável por ajudar a dissolver coágulos.
Nas células expostas ao eritritol, essa resposta foi praticamente inexistente, sugerindo uma menor capacidade de dissolução de trombos, um fator diretamente ligado ao risco de AVC e infarto.
Esses achados laboratoriais mostram resultados compatíveis com dados populacionais. Um estudo de 2023 publicado na Nature Medicine, com mais de 4.000 participantes, mostrou que pessoas com níveis elevados de eritritol no sangue tinham maior probabilidade de sofrer eventos cardiovasculares ao longo de três anos. A associação persistiu mesmo após ajustes para idade, sexo e fatores de risco tradicionais.
Além disso, em um experimento controlado incluído na pesquisa, voluntários que consumiram eritritol apresentaram aumento da reatividade plaquetária, um passo importante na formação de coágulos.
Não é preciso alarde
Os pesquisadores ressaltam que esses resultados não significam que o consumo ocasional de produtos com eritritol vá causar infarto ou AVC em pessoas saudáveis.
O alerta, no entanto, recai sobre o consumo frequente e em grandes quantidades, principalmente por indivíduos com histórico de doenças cardiovasculares, hipertensão ou outros fatores de risco.
Diante da popularização dos produtos “sem açúcar”, os cientistas defendem mais estudos de longo prazo e uma reavaliação cuidadosa do papel desses adoçantes na alimentação cotidiana.
A substituição do açúcar pode trazer benefícios, mas, como mostram as evidências mais recentes, nem sempre é isenta de riscos.
Como substituir o adoçante?
Uma opção para reduzir o consumo de adoçantes, sem voltar ao açúcar, é reduzir aos poucos o gosto pelo doce. Diminua progressivamente a quantidade de adoçante/açúcar nas bebidas e receitas. Entre duas e quatro semanas, seu paladar se adaptará a sabores menos doces.
Em casos que não dá para fugir, como em receitas, é possível optar por alternativas naturais para adoçar os alimentos:
Frutas;
Canela, baunilha, cardamomo;
Batata doce, abóbora, cenoura, beterraba;
Mel;
Xarope de bordo puro.
Fonte: ND+
Ilustração

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