Soltura de policial condenado gera revolta: “Transformou meu filho em uma peneira”

Foto: Letícia Dauer/g1

Após dez horas de júri popular, o ex-policial militar Vinicius de Lima Britto foi condenado na quinta-feira (9) por homicídio culposo, quando não há a intenção de matar, pela execução do jovem Gabriel Renan da Silva Soares.

Para a mãe da vítima, Silvia Aparecida da Silva, Vinicius "suja a farda de todos os policiais". Segundo ela, o resultado do julgamento foi "uma tremenda injustiça", e toda a família — que acompanhou o julgamento — está indignada.

O crime ocorreu em frente a um mercado da rede Oxxo, na Zona Sul de São Paulo, em 3 de novembro de 2024. Gabriel foi morto a tiros pelas costas após furtar quatro pacotes de sabão.

A pena foi estipulada em 2 anos, 1 mês e 27 dias em regime semiaberto. Como Vinicius já estava preso preventivamente desde 5 dezembro no Presídio Militar Romão Gomes, a juíza expediu o alvará de soltura.

Vinicius era soldado do 22° Batalhão Metropolitano e foi expulso da Polícia Militar em 10 julho, segundo o Diário Oficial do Estado.

Ele sabe que não matou o meu filho em legítima defesa. Ele teve a intenção de matar, matou o meu filho com requinte de crueldade. Ele fez do meu filho uma peneira.

— Silvia Aparecida da Silva, mãe de Gabriel

"Ele é um assassino independente do que aconteça, se ele ficar dois anos, se ele ficar um ano [preso], ele sempre vai ser um assassino. A Justiça dos homens foi isso que foi, esse fiasco. Mas a justiça de Deus tenho certeza que vai ser bem melhor", disse ao g1.

Na condenação, também foi estipulada a indenização de R$ 100 mil a família, atendendo ao pedido do Ministério Público de São Paulo.

Já a defesa do ex-agente, representada pelo advogado Mauro Ribas, declarou que "a decisão dos jurados foi correta, reconhecendo a culpa do réu, pela sua imprudência, contudo, afastando o dolo da conduta".

Procurada, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que "não compactua com desvios de conduta de seus agentes, punindo rigorosamente aqueles que descumprem os protocolos da instituição".

O júri popular aconteceu no Fórum Criminal da Barra Funda, na Zona Oeste de São Paulo, e foi presidido pela juíza Viviane de Carvalho Singulane. O conselho de sentença do júri era formado por quatro mulheres e três homens.

As qualificadoras do crime eram: homicídio qualificado pelo motivo fútil, meio cruel e recurso que dificultou a defesa da vítima.

O público que assistia ao julgamento no plenário, que estava lotado, foi dividido em duas partes. Do lado direito estavam sentados familiares e colegas policiais do réu. Eles estavam à paisana e vestidos com camisetas pretas. Já o lado esquerdo foi destinado à família da vítima. Os pais choraram, indignados, após ouvir a condenação por homicídio culposo e não ficaram no fórum para a leitura da sentença.

Inicialmente estavam arroladas sete testemunhas, porém somente três foram ouvidas. As demais foram dispensadas, segundo o Tribunal de Justiça.

O primeiro a ser ouvido foi o funcionário do mercado, que atendia o policial no caixa e presenciou o crime. Durante a oitiva, que durou uma hora, os espectadores e o réu tiveram que deixar o plenário, já que ele é uma testemunha protegida.

Em seguida, foi a vez da mãe da vítima, Silvia Aparecida da Silva, ser ouvida. “Para mim foi um choque saber o que tinha acontecido com o meu filho. É difícil a ausência, saber que ele foi assassinado tão brutalmente”, afirmou.

Quando a assistência de acusação mostrou fotos da família e de Gabriel, Silvia começou a chorar. Segundo ela, o filho lutava contra o vício em drogas havia anos.

“No dia em que foi assassinado, ele me pediu ajuda para encontrar alguma clínica que fosse de graça para fazer tratamento. Mas não teve esse tempo.”

A última oitiva foi do pai da vítima, Antônio Carlos Moreira Soares, que estava muito abalado e interrompeu a fala algumas vezes para chorar.

“Estou vivendo de remédio para depressão e ansiedade. Tiraram tudo de mim. Gabriel era tudo para mim. Tenho mais dois filhos, mas o Gabriel era tudo para mim, trabalhava comigo fazendo entrega”, desabafou, emocionado.

Para o pai, o réu “é uma pessoa despreparada”.

O PM Vinicius foi reprovado no exame psicológico do concurso da Polícia Militar em 2021, quando tentou ingressar na corporação pela primeira vez. Segundo o resultado da avaliação, Vinicius apresentou “inadequação” nos seguintes critérios: relacionamento interpessoal adequado, capacidade de liderança e controle emocional.

Fonte: G1