O período de 2023 a 2024 foi o pico da série histórica: nove ondas de calor entre agosto e dezembro, o maior número já registrado desde 1979 — mais que o dobro da média geral do país, que é de quatro registros.
A temporada foi o mais quente da história no mundo. No Brasil, mais de 6 milhões de pessoas enfrentaram pelo menos 150 dias de calor extremo em 2024, como o g1 mostrou com exclusividade.
Ainda não é possível saber quando vamos passar pela primeira onda de calor. No entanto, as previsões de setembro mostram um mapa quase inteiro laranja ou vermelho – o que indicam temperaturas acima da média em quase todo o Brasil – e com índices que podem chegar a 3°C acima da média.
O pesquisador e especialistas em Ciências Meteorológicas, Marcelo Seluchi, explica que vamos começar a sentir os primeiros sinais do El Niño em setembro e podemos esperar calor intenso no Centro-Sul, com chuvas no Sul.
"A temperatura dos oceanos estão batendo recordes e as previsões indicam que vão continuar aumentando. Isso nos mostra que podemos esperar um calor intenso já a partir de setembro, com ondas de calor acontecendo com maior frequência, intensidade e duração", explica.
E quais são as consequências do calor?
O calor tende a intensificar a seca. Menos nuvens significam mais evapotranspiração — o processo pelo qual solo e plantas perdem água para o ar —, o que reduz a umidade do solo e agrava o quadro de estiagem.
De acordo com os dados do Índice Integrado de Seca, produzidos pelo Cemaden para o governo federal, 157 cidades no país já estão em seca severa. A maioria dos casos está no Norte e no Nordeste. Os estados com maior número de municípios nessa condição são Tocantins, com 50 casos, e Bahia, com 18.
“As regiões mais afetadas vão ser o Norte e o Nordeste, já estamos vendo isso com registros de chuva inferior ao esperado nessas regiões”, explica Ana Paula Cunha, pesquisadora e especialista em secas.
O calor também aumenta o risco de incêndios. Um levantamento conjunto do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC/INPE), do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) classifica os municípios brasileiros por nível de risco de fogo, cruzando dados de atividade humana — como tendência e acúmulo de focos de calor — com condições climáticas, como temperatura acima da média, chuva abaixo da média e a duração da estação seca.
O resultado mostra que 560 municípios estão hoje em alerta alto, somando uma área de mais de 3 milhões de quilômetros quadrados. Isso representa mais de 35% do território nacional. A região mais vulnerável está entre a Amazônia e o Pantanal.
O risco é um dos principais pontos de atenção para o Ministério do Meio Ambiente. A Amazônia registrou no primeiro semestre de 2026 a menor área com sinais de desmatamento detectados por satélite em uma década, segundo dados do Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), do Inpe.
Com isso, desde maio foi criado um gabinete de crise para responder ao El Niño com mobilização de mais de 4,6 mil brigadistas federais pelo país para o reforço no combate a incêndios.
Para além disso, há impactos também na economia. Os alimentos podem ficar mais caros para os brasileiros e atingir um pico de preços em até seis meses após os choques climáticos provocados pelo El Niño. Segundo o estudo, os alimentos in natura, como carnes e hortaliças, são os que tendem a encarecer mais.
Em um cenário de El Niño forte, os preços dessa categoria podem subir 19,9%, enquanto a alimentação no domicílio avançaria 6,32%.Sem lugar para fugir do calor: Brasil deve ter seis ondas de calor entre setembro e dezembro
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