Após o confronto registrado durante o saque de uma carga de eletrodomésticos às margens da BR-277, em Nova Laranjeiras, uma professora e moradora da Terra Indígena Rio das Cobras decidiu falar sobre o episódio e, principalmente, sobre os efeitos que a ocorrência provocou entre os demais indígenas que vivem na região.
Elizandra Fygsanh Freitas, que nasceu e vive há quase 30 anos no território, é professora de História e mestre em Educação. Ela afirma que não estava no local no momento do confronto e, por isso, não conhece todos os envolvidos na ação. Mesmo assim, diz ser favorável à punição de quem participou do saque e cobra uma resposta das lideranças indígenas.
"A gente super concorda que quem fez isso receba uma punição. Mas isso depende da organização social, das nossas lideranças aqui dentro."
"Não são todos os indígenas"
Um dos principais pontos levantados pela professora é a preocupação com a generalização feita após o episódio. De acordo com Elizandra, a Terra Indígena Rio das Cobras reúne cerca de 1.045 famílias e mais de 3 mil pessoas, distribuídas em 13 aldeias.
"Essas 3 mil pessoas não estavam presentes ali. Teve gente que estava trabalhando naquele horário que aconteceu tudo isso", afirma.
Elizandra também relata que moradores passaram a receber mensagens ofensivas nas redes sociais depois que imagens e informações sobre o confronto começaram a circular.
Para ela, os ataques também podem afetar crianças e adolescentes indígenas, que acompanham o que é publicado nas redes sociais.
Elizandra também chama atenção para outro ponto: segundo ela, os saques de cargas não envolvem necessariamente apenas indígenas.
"Não é somente os indígenas envolvidos. Também tem os não indígenas que se envolvem nesse saqueamento. Quem compra esses produtos que são saqueados também está contribuindo com o crime", afirma.
A professora também rejeita a ideia de que indígenas provoquem acidentes na rodovia de propósito para depois saquear cargas.
Ela afirma que a BR-277 é uma estrada perigosa e que acidentes acontecem no trecho que passa pelo território.
O confronto ocorreu na tarde de terça-feira (11), depois que dois caminhões se envolveram em um acidente no km 484 da BR-277, em Nova Laranjeiras. Um dos veículos, carregado com eletrodomésticos, tombou e parte da carga começou a ser retirada.
O motorista ficou preso às ferragens e, segundo a Polícia Militar, equipes de socorro tiveram dificuldades para acessar o caminhão por causa da movimentação de pessoas no local.
A situação evoluiu para um confronto entre policiais e pessoas que estavam na região.
Quatro policiais militares e profissionais de saúde ficaram feridos. Viaturas e veículos também foram atingidos por pedras.
A BR-277 ficou totalmente interditada por mais de cinco horas e o congestionamento chegou a aproximadamente 14 quilômetros.
Segundo a Polícia Rodoviária Federal informou que aquela foi a 11ª ocorrência de saque de cargas registrada na região neste ano.
Lideranças devem discutir punições
Representantes das aldeias relacionadas à situação devem se reunir para discutir o episódio e definir quais medidas poderão ser tomadas.
O pedido, segundo ela, é para que os responsáveis sejam punidos, mas sem que toda uma população seja responsabilizada pelo comportamento de algumas pessoas.
Ao final, Elizandra deixa um apelo para que as pessoas conheçam melhor a realidade das comunidades antes de fazer generalizações nas redes sociais.
"Eu acredito que a gente tem que ter empatia. Realmente aqueles que fazem atos negativos têm que receber punição mesmo. Eu sou totalmente a favor disso."
Fonte: Catve
Foto: Catve

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