Após relatar anos de violência, biomédica quer retirar nome da mãe da certidão

Foto: Reprodução/TV Globo

Uma reportagem do 'Fantástico' sobre a história de Heloísa Rodrigues, tem dado o que falar na web tanto pelos absurdos quanto por uma atitude incomum da Biomédica e estudante de Ciências Econômicas. Aos 28 anos, ela tenta na Justiça retirar o nome da mãe de seus documentos oficiais. 

Segundo o relato, o pedido foi feito para tentar apagar as memórias de uma infância marcada por violência física, abusos sexuais e anos de sofrimento, que resultaram em diversas denúncias e processos judiciais.

Heloísa nasceu com o nome de Larissa, mas conseguiu na Justiça, em 2024, alterar o prenome e retirar o sobrenome materno. O que ainda permanece em disputa é a exclusão do nome da mãe da certidão de nascimento e dos demais registros civis.

Segundo ela, manter esse vínculo nos documentos faz com que reviva lembranças dolorosas em situações cotidianas: "Eu vou em lugares, precisa confirmar o nome da mãe, precisa escrever o nome dela. Em hospital vem o nome dela na pulseira", afirmou.

Questionada durante a reportagem se preferia não ser filha de ninguém a continuar sendo registrada como filha da mulher que a criou, respondeu sem hesitar que "sim".

Relatos apontam anos de violência na infância

Durante a entrevista, Heloísa afirmou que as agressões começaram ainda na infância e se intensificaram após a separação dos pais, quando ela tinha cerca de cinco anos. Um dos episódios mais marcantes, segundo seu relato, aconteceu quando a mãe teria ateado fogo à cama onde ela e o pai estavam.

"Foi quando a gente meio que acordou com ela colocando fogo na nossa cama. Ele me tirou, e queimou a cabeça dele, não cresce cabelo por causa de queimadura. Além disso, queimou um pouquinho da minha nádega. Depois desse dia, eu não vi mais ele dentro de casa", contou.

Documentos obtidos pelo 'Fantástico' mostraram que as denúncias começaram ainda quando ela era criança. Em 2010, registros do Conselho Tutelar apontam que Heloísa procurou o órgão para denunciar maus-tratos contra os irmãos e, no mês seguinte, fez uma nova denúncia envolvendo agressões contra uma das irmãs.

Segundo a reportagem, a mãe chegou a assinar um termo de responsabilidade junto ao Conselho Tutelar. Pouco depois, o pai procurou atendimento psicológico para a filha devido a um quadro de depressão.

Heloísa fez acusações de abuso sexual

Além das agressões físicas, Heloísa afirma ter sido vítima de abusos sexuais desde os nove anos de idade. Ela contou que relatou o primeiro episódio à mãe, mas disse que não recebeu acolhimento.

"O primeiro abuso foi com 9 anos, tinha um moço que cuidava de mim, e aí ela me deixou lá na casa dele, tinha a mulher e a filha, eles tinham saído. Eu cheguei em casa, falei para ela. A minha mãe me espancou e nunca a gente não falou mais desse assunto", declarou.

Em 2017, já adulta, a jovem reuniu vídeos, áudios e outros materiais e publicou um relato nas redes sociais. A denúncia chegou ao Ministério Público de São Paulo e deu origem a uma investigação criminal, onde a mãe foi ouvida apenas como testemunha.

Segundo a reportagem, dois homens foram condenados. Um recebeu pena de 31 anos e oito meses de prisão por violência sexual contra as três irmãs. Outro foi condenado a nove anos e quatro meses por violência sexual contra duas das irmãs mais novas. Ambos recorrem em liberdade.

Justiça negou exclusão do nome da mãe dos documentos

Após deixar definitivamente a casa da mãe, em 2021, Heloísa iniciou o processo para alterar sua identidade civil. A ação foi acompanhada por laudos psicológicos e depoimentos de testemunhas. Embora a Justiça tenha autorizado a mudança do prenome e a retirada do sobrenome materno, o pedido para excluir o nome da mãe dos registros oficiais foi negado.

Na decisão, o magistrado entendeu que não existe previsão legal para apagar a maternidade biológica dos documentos, por considerar que esse vínculo representa um fato histórico e biológico, independentemente da qualidade da relação entre mãe e filha.

A defesa de Heloísa recorreu da decisão e afirma que o Direito brasileiro já reconhece diferentes formas de parentalidade, o que permitiria discutir alterações em situações excepcionais envolvendo histórico comprovado de violência.

Heloísa Rodrigues conseguiu medida protetiva contra a mãe

Em 2025, Heloísa apresentou uma nova denúncia contra a mãe, desta vez por violência doméstica, perseguição e suposta participação nos abusos relatados ao longo dos anos. A Justiça concedeu uma medida protetiva determinando que a mãe permaneça a pelo menos 500 metros de distância da filha. O caso segue sob investigação da Polícia Civil.

Ao 'Fantástico', a mãe negou todas as acusações de maus-tratos, conivência com abusos sexuais e qualquer recebimento de dinheiro para permitir contato da filha com homens. Ela também afirmou que Heloísa inventava histórias desde a infância para morar com o pai.

Hoje, vivendo com a companheira e trabalhando em um banco, Heloísa afirma que a retirada definitiva do nome da mãe trata-se do encerramento de um capítulo marcado pela violência: "Quero me livrar disso".


Fonte: MSN