Empresa aumenta aquisição de café cultivado com foco na preservação do solo

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A multinacional Nestlé anunciou, nesta quinta-feira (18/6), que 53% do café verde adquirido para abastecer a marca Nescafé provém de fazendas que adotam práticas de agricultura regenerativa. A empresa apresentou uma atualização dos dados do Nescafé Plan, programa de apoio a produtores pelo mundo.

Em 2024, a aquisição de matéria-prima de fazendas integrantes do programa correspondia a 32% do total. A Nestlé como um todo é a maior compradora mundial de café verde. As compras só da Nescafé correspondem a cerca de 10% da produção global.

No ano passado, a iniciativa chegou a 100 mil agricultores em 15 países, que receberam apoio de 1,6 mil agrônomos. São mais de 400 mil hectares globalmente. A empresa divulgou ainda que distribuiu mais de 20 milhões de pés de café e plantou mais de 5,5 milhões de árvores em uma iniciativa de reflorestamento.

“A abordagem do programa é a de transição para boas práticas de agricultura, boas práticas ambientais, além de dar suporte às comunidades com as quais nos relacionamos”, resumiu Marcelo Burity, executivo chefe da área de café verde da Nescafé.

A marca iniciou o programa de parceria com agricultores há 15 anos. Não informa o valor do investimento em cada país. A expectativa, de forma global, é somar até o ano de 2030, um aporte de cerca de 1 bilhão de francos suíços (o equivalente a pouco mais de R$ 6,42 bilhões).

As metas do Nescafé Plan até daqui quatro anos são de comprar toda a matéria-prima de fornecedores certificados e de ter pelo menos metade do café originado a partir de fazendas que adotam práticas de agricultura regenerativa. Na parte industrial, o objetivo é reduzir em 50% as emissões em comparação com 2018, ano de referência para a medição.

A apresentação dos dados reuniu executivos da empresa em São Paulo e em videoconferência. Encerrou um roteio de uma semana com jornalistas e influenciadores de várias partes do mundo, que foram a uma fazenda no Espírito Santo e a uma unidade industrial da empresa no interior de São Paulo.

Em conversa com a reportagem, em Linhares (ES), Burity explicou que quase metade dos produtos de café da marca sai de unidades industriais instaladas em países produtores de café, entre eles o Brasil.

No território brasileiro, o Nescafé Plan reúne mais de 3,8 mil fazendas de café em Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo e Bahia. São 35 agrônomos em campo para prestar assistência a esses produtores de arábica e conilon. Nas contas da empresa, as iniciativas de capacitação têm potencial de reduzir em até 40% o uso de fertilizantes e em 20% os custos de produção.

“O ponto crítico do sucesso do nosso negócio é a resiliência e a boa qualidade da produção. É sempre importante nos relacionarmos com os produtores no desenvolvimento da qualidade e assegurar nosso abastecimento”, disse.

Do ponto de vista da empresa, apoiar os produtores é uma forma de garantir a oferta de café para suas indústrias de acordo com seus padrões. O executivo pontuou, no entanto, que os parceiros não são obrigados a vender para a Nescafé. E que a companhia adapta a sua estratégia comercial para fazer valer seu interesse em adquirir o grão desses cafeicultores.

“Todo o café que compramos no Brasil já é de compra responsável. Adaptar nossa estratégia comercial passa por trazer o máximo possível de compra preferencial, oferecendo os preços mais competitivos possíveis para que eles decidam vender para nós”, disse ele.

Uma das fazendas parceiras de Nescafé é a Chapadão, em Linhares, no Espírito Santo. Administrada pela família Bortolini, que está na terceira geração de cafeicultores, a propriedade tem 310 hectares de cafezais, com cerca de 1,2 milhão e pés de café conilon voltado, principalmente, à exportação.

A plantação é irrigada por gotejamento, a partir de uma fonte própria de água dentro da propriedade, e gerenciada com o uso de inteligência artificial. Entre as práticas adotadas, estão o uso de drones na pulverização e o reaproveitamento de resíduos, como as cascas do café, no campo.

A Chapadão possui vários tipos de certificação, explicam seus proprietários, o que lhe permite chegar a vários mercados diferentes e a um leque maior de clientela. Parceira da Nescafé, a fazenda não tem a empresa como único cliente.

Rafael Bortolini explica que adoção de mecanismos de agricultura regenerativa traz resultados em melhoria de produtividade e de competitividade, reduzindo custos de produção.

“Mesmo que o mercado responda negativamente e os preços caiam, você consegue ser mais competitivo, por saber de onde vem seus custos e reduzi-los", disse o produtor, um dos responsáveis por mostrar o trabalho da fazenda aos jornalistas.

Seu pai, Eduardo, acrescentou que o processo não é rápido, mas, ao longo do tempo, as mudanças na produção da fazenda ficam visíveis e é possível enxergar melhor o que agrega valor ao café que a família fornece.

“É um desafio, porque, dentro da gestão, a gente tem expectativas e, muitas vezes, não se concluem. Tem que garantir uma boa produção. E outra coisa é o trabalho de mercado, a negociação, parcerias e certificações”, resumiu.

Em apresentação aos jornalistas, Valeria Pardal, executiva chefe da área de café da Nestlé no Brasil, reconheceu que é preciso também apresentar de forma correta esses diferenciais competitivos aos consumidores. Disse que essa comunicação deve ser simples e compreensível.

"Não se trata de um elemento único. Precisamos ser consistentes na questão do valor. Estar disponível para o consumidor, comunicar de forma eficiente e precificar corretamente”, disse.

No campo, o agricultor Rafael Bortolini disse acreditar que o resultado de adotar as práticas de agricultura regenerativa não vem, necessariamente, na comercialização.

“O pagamento não vem na comercialização final. Vem na produtividade. Mesmo que o mercado não esteja pagando esse diferencial, a gente compensa nas margens. Nossas margens são bem melhores do que se não adotássemos essas práticas”, disse.



Fonte: Globo Rural