O clima para a agricultura mundial já está sob impacto do El Niño. Em que pesem as preocupações com os eventos extremos, para a produção de soja, o fenômeno pode estabilizar ou até ampliar a oferta global do grão, segundo análise da Consultoria Agro do Itaú BBA.
Em relatório, o banco destacou que as perdas esperadas para algumas regiões, como Ásia e África, são compensadas por ganhos de rendimento em grandes produtores, como Brasil, EUA e Argentina.
“Estudos indicam que durante El Niños, as produtividades médias globais de soja aumentam cerca de 2% a 5%, graças ao clima favorável nos EUA e Brasil”, disse o Itaú BBA, no relatório.
A instituição ainda lembrou que eventos de El Niño moderados costumam ter impactos de baixa sobre os preços da soja, já que a oferta global normalmente se mantém adequada ou supera a demanda esperada, resultando em estoques elevados.
Como exemplo, o Itaú BBA cita as safras 1997/98 e 2015/16, que tiveram a formação de El Niños fortes e não houve rupturas significativas no balanço de grãos, e os preços internacionais apresentaram padrões de variação menos intensos, inclusive com menor volatilidade do que em anos neutros ou de La Niña.
O cenário base para 2026/27 é de um mundo relativamente equilibrado na oferta de soja. A perspectiva de aumento da safra americana, manutenção em bons patamares da safra argentina e possibilidade de um novo recorde para o Brasil, mantém a expectativa de novo recorde na oferta mundial do grão, estimada em 441,34 milhões pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).
Pelo lado da demanda, o Itaú BBA disse que o crescimento da demanda ganha destaque, diante do panorama de crescimento mundial da utilização de biocombustíveis, que eleva a demanda por óleo de soja e esmagamento do grão.
Nesse contexto, ao somar somente produção e consumo, o saldo global de soja deve apresentar o menor valor desde a safra 2021/22, quando esse mercado foi deficitário. Pelos números do USDA, o mundo deve sair de um superávit de quase 16 milhões de toneladas na na safra 2024/25 para abaixo de 1 milhão na safra 2026/27.
A consultoria espera um novo recorde para a soja do Brasil, com 182,4 milhões de toneladas em 2026/27
“Nosso cenário base é de novo recorde para a produção de soja do Brasil, dado que, em anos de El Niño, a tendência média para o Brasil é neutra a ligeiramente positiva, e isso manteria o balanço global relativamente equilibrado. Porém, com a possibilidade de um fenômeno forte se intensificando, a simulação serve para quantificar o potencial impacto de uma quebra do Brasil no equilíbrio para 2026/27”, finalizou o Itaú BBA.
Milho
Ao traçar um panorama sobre os impactos do fenômeno El Niño para a produção de milho segunda safra no Brasil, a consultoria Agro do Itaú BBA disse que uma das principais consequências pode aparecer na semeadura para a temporada 2026/27.
Em boletim, a empresa lembrou que o padrão climático típico do El Niño, com chuvas irregulares no Centro-Oeste no início da estação, tende a retardar o plantio da soja, o que empurra a colheita para datas mais tardias e, consequentemente, comprime a janela ideal de plantio do milho segunda safra no país.
“Esse efeito calendário é crucial, pois aumenta a exposição da cultura a condições adversas no final do ciclo, especialmente déficit hídrico e altas temperaturas durante o enchimento de grãos”.
Além do efeito de calendário, há um padrão mais estrutural de maior risco produtivo. Enquanto a soja apresenta, em média, desvios neutros ou até levemente positivos em anos de El Niño, o milho exibe um comportamento mais consistente de perdas ou maior volatilidade.
Como exemplo desse quadro, o Itaú BBA relembrou episódios de El Niño em safras anteriores como as de 2004/05, 2009/10 e sobretudo 2015/16. Os períodos mostram quedas relevantes de produtividade no Brasil, refletindo tanto o plantio tardio quanto a pior distribuição de chuvas no Centro-Oeste durante o desenvolvimento do milho. “ “Esse padrão reforça que a safrinha é muito mais sensível ao clima do que a soja de primeira safra”, destaca o documento.
Mesmo diante dos receios com o El Niño e seus efeitos, o Itaú BBA reforçou que desde a forte quebra da safra 2015/16, a tecnologia de sementes e o perfil de solo evoluíram. Assim, mesmo na ocasião de um evento de forte intensidade como daquele ano, esses elementos podem atuar como mitigantes nos números de quebra de safra.
Da mesma forma, o manejo por parte dos produtores evoluiu, assim como o uso de irrigação na região em regiões que sofrem com mais restrição hídrica em anos de El Niño, como o Mapito, fronteira agrícola composta pelos Estados do Maranhão, Piauí e Tocantins.
Fonte: Globo Rural
Foto: José Fernando Ogura/AEN

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