Polilaminina, por que estudo não foi publicado em revistas científicas e quais os próximos passos da pesquisa

Foto: Faperj/Divulgação

Revistas científicas que avaliaram o estudo sobre a polilaminina apontaram dois problemas principais para recusar a publicação do texto: divergências sobre a taxa de recuperação de pacientes usada como referência no trabalho e a ausência de registro prévio do ensaio clínico em um banco internacional de pesquisas.

A pesquisa ganhou repercussão após relatos de melhora em pacientes com lesão na medula espinhal e foi divulgada em 2024 como pré-print — uma versão preliminar de artigo científico que ainda não passou pelo processo formal de revisão por pares. Até agora, o trabalho não foi aceito por nenhum periódico científico.

A pesquisadora responsável pelo estudo, Tatiana Sampaio, afirmou ao g1 com exclusividade que o texto será corrigido e revisado após as críticas recebidas durante as tentativas de publicação. Segundo ela, a nova versão deve corrigir erros identificados no manuscrito e trazer explicações adicionais sobre pontos que foram questionados por editores e especialistas.

Nesta reportagem, o g1 explica quais foram as críticas feitas pelas revistas científicas, quais ajustes a pesquisadora afirma que fará na e quais são os próximos passos da pesquisa para avaliar se a polilaminina é segura e eficaz.

Por que o texto foi negado em revistas?

O que ela vai corrigir?

Pesquisa pode ter um grupo controle pareado

Já é possível afirmar que a substância tem eficácia e é segura?

Quais são os próximos passos?

Por que o texto foi recusado em revistas?

Quando um estudo é submetido a uma revista especializada, ele passa pela chamada revisão por pares. Ou seja, é avaliado por pesquisadores e, quando aceito nesses periódicos, isso indica que o trabalho passou por uma avaliação técnica considerada um dos principais filtros de qualidade da ciência na pesquisa.

De acordo com Tatiana, ela teve três recusas de sua versão já revisadas: Nature Communications, uma outra revista do grupo Nature e o Journal of Neurosurgery.

De acordo com a pesquisadora, os pontos alegados foram:

Divergência na taxa de melhora sem a polilaminina

Na pesquisa, Tatiana afirma que cerca de 9% dos pacientes com lesão medular completa recuperam algum grau de função motora sem tratamento. Essa comparação é o que, segundo os autores do estudo, torna os resultados com a polilaminina tão impressionantes.

No entanto, durante o processo editorial, revisores questionaram esse número e argumentaram que a taxa de recuperação poderia ser significativamente maior — em alguns casos chegando perto de 40%, segundo estudos citados pelos editores. A pesquisadora afirma que contestou essa interpretação com base em dados de um estudo que usa como referência.

🔴 Essa diferença é importante porque a taxa de recuperação espontânea é usada como base de comparação para avaliar se a melhora observada pode realmente ser atribuída à polilaminina ou ao curso natural da doença.

As outras duas respostas eram respostas meio parecidas. A conversão de A para C é muito mais do que 9%. (...) O editor e toda a revista me mandaram um artigo publicado na própria revista dizendo que a conversão era maior. Aí eu perguntei para ele: ‘olha, você está errado.

— Tatiana Sampaio, doutora em ciência e pesquisadora que lidera o estudo sobre a polilaminina

Falta de registro prévio

Uma das recusas ocorreu porque o estudo não havia sido registrado previamente no ClinicalTrials.gov, um banco internacional que reúne informações sobre pesquisas clínicas realizadas com pacientes.

➡️ O registro nessas plataformas é usado para aumentar a transparência da pesquisa científica. Nele ficam documentados, desde o início do estudo, os objetivos, os métodos e os resultados que os pesquisadores pretendem avaliar — o que ajuda a evitar mudanças no desenho da pesquisa depois que os dados já começam a aparecer.

Sem isso, revisores podem questionar se o desenho da pesquisa foi definido antes dos resultados aparecerem, o que é considerado um critério importante para a confiabilidade do estudo.

Por isso, muitas revistas científicas exigem que o cadastro seja feito antes do início do estudo como condição para publicação. Segundo a pesquisadora, no caso da polilaminina o registro foi feito apenas depois do começo da pesquisa, porque ela não sabia que essa era uma exigência adotada por vários periódicos científicos.

O editor falou que ia mandar para revisão, mas o artigo ficou no technical check porque a gente não tinha feito o registro no ClinicalTrials.gov. Eles só publicam quando existe um registro prévio. E a gente fez depois. Se você me perguntar por que foi depois, eu vou te dizer sinceramente: porque eu não sabia. Eu nunca tinha feito e não sabia que precisava registrar antes.

— Tatiana Sampaio, doutora em ciência e pesquisadora que lidera o estudo sobre a polilaminina

Após as recusas, ela afirma que pretende revisar o texto e submetê-lo a periódicos que costumam publicar estudos clínicos de braço único, sem grupo controle ou placebo.

🔴 Tatiana explica que alguns pontos levantados não podem ser ajustados, como o caso do registro do estudo clínico, enquanto outros ela contesta, como a taxa de recuperação.

Para traçar essa nova estratégia e lidar com as críticas recebidas, Tatiana diz que também consultou ferramentas de inteligência artificial.

O que eu fiz foi o seguinte: eu pedi para o ChatGPT me ajudar. Aí eu falei: ‘eu estou vendo as pessoas dando argumento de que não vale, que não funciona, que não sei o quê’. Aí ele me deu vários conselhos.

— Tatiana Sampaio, doutora em ciência e pesquisadora que lidera o estudo sobre a polilaminina

O que ela vai corrigir?

Em entrevista ao g1, Tatiana disse que vai corrigir erros no pré-print e fazer uma nova revisão. Segundo a pesquisadora, as mudanças no texto estão sendo feitas após problemas identificados por ela própria e também a partir de pontos levantados por editores durante tentativas de publicação em revistas científicas.

Segundo Tatiana, os pontos a serem corrigidos são:

Erro em gráfico de paciente

Na versão atual do pré-print, o participante 1 aparece com cerca de 400 dias de acompanhamento, apesar de o texto indicar que ele morreu cinco dias após o procedimento. Tatiana confirmou que os dados pertencem, na verdade, ao participante 2 e que houve um erro de digitação na figura.

Fonte: G1