Sobrevivente de tentativa de feminicídio que está escondida no PR perde formatura, mas envia carta à cerimônia: 'Ele não venceu'

Foto: Unespar

Sayonara Doraci da Silva sobreviveu a uma tentativa de feminicídio em fevereiro deste ano, em Apucarana, no norte do Paraná. Mais de um mês depois do crime, o ex-companheiro dela, Ademar Augusto Crepe, permanece foragido. Neste período, a vítima se formou em Administração na Universidade Estadual do Paraná (Unespar).

Escondida para se manter em segurança, Sayonara não pôde receber o diploma de forma presencial durante a cerimônia de formatura, mas se fez presente por meio de uma carta.

No texto, Sayonara lamenta a ausência e relata que o ex-companheiro não foi mais localizado desde a data do crime (10 de fevereiro). Ela também recorda que, mesmo sob o medo causado pela violência, venceu a faculdade.

"Persisti quando o mundo me dizia que bastava apenas sobreviver", escreveu na carta.

A carta foi lida pela professora Carine Maria Senger antes da entrega dos diplomas. Em entrevista ao g1, a docente contou que, em 18 anos na instituição, aquela foi a primeira vez que vivenciou uma situação semelhante.

A professora recebeu o texto algumas horas antes da cerimônia, que aconteceu no dia 27 de fevereiro, e lembra do "sentimento contraditório", como classificou, de tristeza pela ausência da aluna e honra por poder representá-la. Carine conheceu Sayonara no curso e foi coordenadora de projetos de pesquisa e extensão dos quais a vítima participou.

"Inclusive cheguei a pensar que talvez não conseguisse fazer a leitura durante a cerimônia. Foi um momento de muita emoção", disse ao g1.

A Unespar publicou uma nota de apoio a Sayonara, citando que a mulher rompeu um ciclo de violência violência e buscou, "por meio da educação, a construção de um projeto de vida autônomo".

Leia a carta escrita por Sayonara na íntegra:

Gostaria muito que estas palavras fossem ditas por mim, olhando nos olhos de cada colega, professor e familiar. Mas hoje, minha voz chega até vocês através deste papel, porque a minha presença física me foi roubada.

Formo-me hoje, mas não posso subir ao palco. Enquanto celebramos o fim de um ciclo acadêmico, eu enfrento o auge de um ciclo de injustiça. Não estou aí porque o homem que tentou apagar a minha luz e a vida do meu filho caminha Iivre. Minha ausência nesta festa não é uma escolha, é reflexo da falha de um sistema que ainda obriga a vítima a se esconder enquanto o agressor desfruta da liberdade.

Mas quero que saibam: ele não venceu.

Este diploma que carrega o meu nome é a prova de que, mesmo sob a sombra do medo e da violência, eu não parei. Estudei entre medos e traumas. Escrevi trabalhos enquanto protegia meus filhos. Persisti quando o mundo me dizia que bastava apenas sobreviver.

Aos meus colegas, peço que celebrem também por mim. Que o meu lugar vazio hoje – representado pela professora Carine – sirva de lembrança de que a nossa profissão deve ajudar a construir um mundo onde nenhuma mulher precise faltar à própria vitória para garantir o direito de continuar viva.

Eu venci a faculdade.

Eu venci a silêncio.

E, junto com meus filhos, continuarei vencendo todos os dias.

O meu corpo não está aí, mas a minha conquista é gigante – e ninguém pode tirá-la de mim.

Estudar não é rebeldia.

Estudar é um ato de resistência.

Viva a universidade pública.

Viva a UNESPAR.

Fonte: G1