Igreja da Secção Jacaré celebra sua história, em Francisco Beltrão

Foto: Beltrao Agora

Há lugares construídos com madeira, pedra e telhas. Outros, porém, são erguidos com memória, fé e coragem. A Igreja São Francisco de Assis, localizada na Secção Jacaré, em Francisco Beltrão, reúne esses dois pilares e se mantém como um dos mais importantes símbolos da história comunitária do interior do município.

Neste domingo, 25 de janeiro de 2026, a comunidade se reuniu para mais do que relembrar a construção da igreja. O momento foi marcado pelo reencontro com uma história viva, que começou na década de 1960, quando famílias locais, movidas pela fé e pelo desejo de pertencimento, decidiram que aquele chão merecia mais do que casas e lavouras: merecia um templo, um espaço de encontro entre o céu e a terra.

Naquele período, os recursos eram escassos. Não havia máquinas modernas nem projetos técnicos detalhados. Havia, acima de tudo, união, coragem e trabalho coletivo. Foi nesse contexto que surgiu Gentil Trento, o homem que transformaria madeira em sagrado.

Gentil era um homem simples, de baixa estatura, com uma perna marcada pela paralisia infantil. Apesar das limitações físicas e da ausência de formação acadêmica, possuía uma habilidade singular. Onde muitos viam apenas tábuas, ele enxergava arcos, torres e detalhes arquitetônicos. Seus projetos nasciam de uma “matemática de cabeça” e eram desenhados em pedaços de madeira, onde surgiam paredes, telhados e janelas, dando forma a um sonho coletivo.

Nascido em 1919, em Palermo (SC), Gentil Trento chegou a São Lourenço do Oeste na década de 1950. Viveu apenas 58 anos, tempo suficiente para deixar um legado que atravessa gerações.

A Igreja da Secção Jacaré foi inaugurada em 26 de julho de 1962, dia de Santa Ana. O formato da construção teve origem em uma imagem encontrada em uma simples caixa de fósforos vendida na bodega local, apresentada a Gentil por Hugo Nesi. Na ocasião, a comunidade contribuiu com o que podia, por meio de doações feitas em envelopes. O maior doador, funcionário da antiga Usina Elétrica, tornou-se padrinho da igreja. A maior contribuição feminina partiu de dona Terezinha Rovaris Nesi, que permanece viva e presente na comunidade.

A trajetória, no entanto, não foi marcada apenas por conquistas. Em 3 de fevereiro de 1962, um forte vendaval destruiu parte da estrutura já erguida. A madeira foi ao chão e o esforço parecia perdido. Mesmo assim, ninguém desistiu. As famílias locais recomeçaram, levantando novamente as paredes com fé, persistência e solidariedade.

Participaram desse processo as famílias Bedin, Brufatti, Calegari, Citadin, Crotti, Daleffe, Fiera, Girardi, Hacker, Jung, Knetsiki, Kubiak, Macedo, Macieslki, Maria, Nesi, Pain, Pancera, Peres, Politta, Popovitz, Reis, Risso, Rovaris, Santini, Sergel, Serrato, Silva, Skarzek, Triques, Witt e Zilli.

A madeira utilizada foi a araucária, símbolo do Paraná, beneficiada pelas madeireiras Maria e Santini. Mais do que o pinheiro, porém, o que sustentou a obra foi o espírito comunitário.

Ao longo do tempo, muitas igrejas construídas por Gentil Trento foram substituídas por edificações de alvenaria. A Igreja São Francisco de Assis, contudo, permanece de pé e foi reconhecida em 1995 como Patrimônio Cultural do Município de Francisco Beltrão.

Tudo o que se vê na construção passou pelas mãos e pela orientação de Gentil Trento, com o auxílio de Henrique e Limpio, que vieram com ele de São Lourenço do Oeste. Em reconhecimento a esse legado, o evento deste dia recebeu o nome de “Tributo a Gentil Trento”, representado por seus familiares.

A história da igreja reflete a identidade da própria comunidade: um povo que cai, mas se levanta; que perde, mas reconstrói; que acredita, mesmo quando o vento sopra contra. Sob a proteção de São Francisco de Assis, padroeiro escolhido por Frei Deodato, a igreja segue inspirando pela simplicidade, amor à natureza, fraternidade e capacidade de reconstruir não apenas estruturas, mas também corações.

Há obras feitas para durar décadas.
E há aquelas destinadas a atravessar gerações.

Fontes: Departamento de Cultura de Francisco Beltrão/ Redação Beltrao Agora 

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