Imigrante coreano usa criatividade para se comunicar ao chegar ao Paraná

Foto: Reprodução/Arquivo

“Existia uma ansiedade por uma vida melhor”. Foi com essa perspectiva que 53 famílias coreanas católicas chegaram ao Brasil, em 1966. Entre elas estava a família do padre Man Young Lee, que relembra a chegada ao país, quando tinha 12 anos.

Hoje, aos 72 anos, Lee conta que a viagem de navio durou 55 dias até a chegada ao Brasil em 12 de janeiro de 1966. Ele e a família desembarcaram no Rio de Janeiro e chegaram até a Fazenda Santa Maria, em Tibagi, nos Campos Gerais do Paraná.

A imigração coreana católica contou com o apoio do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), do Itamaraty e de órgãos da igreja no Brasil. Na época, a Coreia do Sul enfrentava grandes dificuldades econômicas e sociais como consequência da Guerra da Coreia (1950–1953).

Segundo o governo brasileiro, o primeiro grupo de 109 coreanos partiu da cidade de Busan, em 1962, e desembarcou no porto de Santos em fevereiro de 1963. No entanto, foi a partir de 1965, com a assinatura de um acordo entre os governos do Brasil e da Coreia do Sul, que famílias coreanas católicas passaram a deixar o país de origem e a migrar para o Brasil em busca de um recomeço.

Segundo o padre Lee, o navio não era preparado para o transporte de passageiros, o que tornou a travessia difícil, principalmente para idosos.

“Era tudo improvisado, com beliches separados por cortinas. Para mim, que era criança, não foi tão pesado. Eu andava pelo navio, brincava e fazia amizades. Mas para os mais velhos foi muito sofrido”, relembra.

Durante a viagem, as famílias fizeram paradas em Singapura e em Penang, na Malásia. Uma das lembranças mais marcantes foi a facilidade para comprar banana, fruta que não é nativa da Coreia do Sul e, por isso, costumava ser mais cara no país asiático.

“Com 25 centavos de dólar compramos um cacho enorme de bananas [na Malásia]. Nunca tinha visto nada igual. Três pessoas sentadas numa praça, comendo banana até não aguentar mais”, conta.

Língua, costumes e clima estiveram entre os principais desafios enfrentados pelas famílias na adaptação. Segundo o padre Lee, os primeiros três meses foram vividos em condições precárias, enquanto as casas eram construídas.

Os imigrantes montaram abrigos improvisados, cavaram poços e viveram sem eletricidade.

As famílias também se preocupavam com a educação dos jovens e das crianças, pois, segundo o padre, no primeiro momento não havia escola.

"Era uma das preocupações contínuas: como é que vamos educar os filhos? Assim, as pessoas começaram a sair, se aventurar, buscar lugares próximos de Santa Rosa e até outras cidades", explica.

Outro fator que contribuiu para que muitas famílias se mudassem foi o fato de que, entre as 53 famílias, não havia ninguém que já tivesse trabalhado com agricultura na Coreia, o que fez com que a atividade agrícola não prosperasse na região.

Para aprender o português, Man Young Lee encontrou formas criativas de se comunicar. Ainda adolescente, ajudava a família comprando alimentos e materiais de construção.

“Eu desenhava prego, martelo. Assim as pessoas entendiam o que eu precisava”, explica. Ele mantinha cadernos com desenhos de itens de feira e materiais de obra, que o ajudou a aprender.

Mesmo após mais de 60 anos no Brasil, o padre mantém a identidade coreana. “Nasci coreano e continuo sendo. Isso faz parte da minha história”, afirma Lee.

Para o mestre Myong Jae Han, pioneiro na introdução do taekwondo no Paraná, preservar a cultura é fundamental para as próximas gerações.

Diferente de sua esposa, Pina Kim, que estava entre as 53 famílias que chegaram em 1966, ele chegou ao país em 1972, e reforça que sempre conversa com seus filhos sobre a Coreia do Sul. Segundo Han, a popularização do K-pop e da culinária coreana no mundo é resultado de uma base sólida de tradição e educação.

"Eu falo com os meus filhos, sim. Vocês são coreanos. Nós somos coreanos. Nós vamos colocar nossa brilhante cultura para nossa sociedade. E vice-versa, né? Nós vamos receber, é lógico. Então é uma miscigenação, uma mistura", conta.

Troca de culturas e fé

O padre André, da Paróquia do Seminário, era amigo do pai de Pina Kim e acompanha a comunidade católica coreana há mais de 30 anos. Para ele, que é brasileiro, a convivência foi marcada por uma fé profunda e acolhedora.

“Eu vi que era uma comunidade de fé. Meu Deus do céu, era impressionante. Eu celebrava muito mal, não sabia a língua, mas eles eram tão carinhosos que acolhiam a gente do jeito que era.”

Segundo o sacerdote, a comunidade conseguiu preservar algo fundamental: a memória. “Recuperar o passado é fundamento de cultura para o futuro. Se isso se perde, a gente erra muito. E eles foram extraordinários nisso.”

Celebração dos 60 anos

Durante o fim de semana a comunidade católica coreana no Paraná realiza eventos para lembrar o marco. Neste domingo, a celebração de uma missa em Ação de Graças encerra as comemorações.

“Não é apenas celebrar. É lembrar das dificuldades, do sofrimento e das conquistas. Se isso se perde, a história também se perde”, afirma.

Para ele, registrar essa trajetória é uma forma de valorizar o passado e garantir que as futuras gerações compreendam o caminho percorrido pelos imigrantes coreanos no Brasil.

Fonte: G1